segunda-feira, 19 de julho de 2010



Mapa político da Ásia.

A Ásia está localizada a oeste do meridiano de Greenwich, ou seja, no oriente, o continente está situado no hemisfério norte. De todos os continentes existentes a Ásia se estabelece como o maior, sua área é de 44 milhões de quilômetros quadrados.

Os limites de fronteira que existem no continente asiático são: ao norte Oceano Glacial Ártico, ao sul Oceano Índico, a leste Oceano Pacífico, a oeste Mar Vermelho, que o separa do continente africano, o Mar Mediterrâneo e os Montes Urais que o separa da Europa.

Além de ser o maior continente do mundo, abriga cinco dos dez países mais populosos do planeta, são eles:
- China (1,3 bilhões habitantes),
- Índia (1,1 bilhão),
- Indonésia (234 milhões),
- Paquistão (169 milhões),
- Bangladesh (150 milhões),
- Japão (127 milhões).
O produto da soma de todos os paises citados representa, aproximadamente, 60% do total da população do planeta.

Devido a sua extensão territorial, o continente abrange diversas características naturais, econômicas e culturais.
Para facilitar as análises de todos os temas foi feita a regionalização do continente, a partir desse processo o continente asiático ficou dividido em Ásia boreal (onde se encontra a parte asiática da Rússia), Ásia Central (Onde está o Casaquistão, o Usbequistão, o Turcomenistão, o Quirquistão e o Tajiquistão), Oriente Médio (abriga, em grande maioria, países árabes e mulçumanos), Ásia austral (abrange a Índia e o sudeste asiático) e Extremo Oriente (composto por China, Mongólia, Taiwan, Coréia do Norte, Coréia do Sul e Japão).

Eduardo de Freitas
Graduado em Geografia
Equipe Brasil Escola

segunda-feira, 5 de julho de 2010



Cuidado com o tigre!





Bichos mortos nas ruas, dejetos atirados ao mar, doenças se propagando: o insalubre cotidiano da capital pernambucana nos tempos do Império



Manuela Arruda dos Santos


As grandes cidades brasileiras não eram exatamente localidades agradáveis no século XIX. Sujo, nojento e enlameado, o cenário urbano se compunha de carniças, bichos mortos, alimentos podres e outras imundícies abandonadas perto das pontes e nas praias.
O Recife, assim como o Rio de Janeiro e Salvador, sofria com sérios problemas provocados pelo inchaço populacional. Numa época em que o sistema de esgotos ainda não existia, o que fazer com os dejetos e águas sujas – ou “águas servidas” –, produzidos diariamente pela população? Nas cercanias da cidade e em locais onde existiam grandes terrenos, era fácil abrir buracos para servir de fossas, mas também se atirava de tudo diretamente nos rios e mangues. No apertado centro, porém, era mais complicado livrar-se dos dejetos.
Nesse tempo, imperava nas cidades um fedor que, hoje, dificilmente podemos conceber. Nas ruas e nos becos estreitos, os maus cheiros se confundiam. Nas praças, vísceras de animais e restos de vegetais estragados compunham um ambiente insalubre. Dentro das casas, cozinhas sem ventilação tornavam o ar viciado, com exalações pútridas de matérias orgânicas em decomposição. Nos quartos, poeira e mofo se misturavam ao cheiro dos penicos.
Todo dia de manhã, eles eram esvaziados em barris de madeira que ficavam embaixo das escadas ou em um canto mais recolhido da casa. Quando o tonel já estava quase transbordando, recorria-se ao “préstimo” do escravo! Era sobre as cabeças deles que o peso das barricas era conduzido para ser despejado na “beira” das marés. Em seguida, os carregadores retornavam com os recipientes vazios para receber nova carga.
Esses barris eram chamados de “tigres” e os seus condutores, de “tigreiros”. Talvez o nome fosse uma alusão à coragem dos carregadores ou, quem sabe, à imagem desagradável das barricas que, ao transbordar, espalhavam fezes nos corpos dos escravos e dos negros de ganho, numa combinação que lembrava a pelagem dos tigres. Existem versões que afirmam que o apelido foi dado porque, ao avistar os negros levando barris de dejetos, os transeuntes, com medo de ficarem sujos, afastavam-se rapidamente, como se fugissem de um animal selvagem.
Quando um “tigre” passava, as pessoas tapavam o nariz com lenços, viravam o rosto, se encolhiam. De longe, os “tigreiros” vinham alertando os moradores com seu bordão “Abra o olho! Abra o olho!” Os passantes se esquivavam, com medo de que um simples esbarrão acarretasse um banho asqueroso.
Para os médicos higienistas, o vai-e-vem dos barris de dejetos pelas ruas aumentava o perigo dos miasmas — como eram chamadas as supostas emanações que corriam pelo ar, na época consideradas responsáveis por moléstias, como os surtos de “febres malignas”, sarampo, varíola, disenterias, lepra, sarnas, oftalmias e tantas outras doenças tão comuns ao longo de todo o século XIX.
A princípio, as imundícies e o lixo doméstico podiam ser despejados em qualquer lugar. Até que, em 1843, um edital da administração municipal estabeleceu locais apropriados para isso. Mas como a falta de recursos limitava a fiscalização, a sujeira continuou sendo jogada em áreas proibidas.
O tratamento dado aos dejetos líquidos gerava freqüentes queixas dos moradores, porque outro hábito comum na cidade era o despejo dos penicos cheios do alto dos sobrados, sem perdoar o caminhante que passava distraído pela rua, a qualquer hora do dia ou da noite. Os algozes ficavam à espreita por trás das janelas dos sobrados, esperando algum desafeto passar para “honrá-lo” com excrementos atirados pela janela. A situação era tão séria que em 1831 a Câmara Municipal editou um regulamento determinando que o arremesso de “águas servidas” para a rua só poderia ser feito à noite, e, mesmo assim, após ser dado um aviso prévio por três vezes seguidas: “Água vai!... Água vai!... Água vai!...”.

O infrator estaria sujeito a multa e deveria pagar indenização pelos prejuízos causados à vítima. Mais uma vez, a lei não “pegou”: banhos involuntários e mal-cheirosos continuaram marcando a paisagem recifense, o que causava repulsa aos viajantes estrangeiros, como Charles Darwin (1809-1882), que, de passagem pelo Recife em 1836, afirmou que a cidade tinha um aspecto repugnante: “as ruas são estreitas, mal calçadas e imundas”. Já o naturalista escocês George Gardner (1812-1849) considerava todas as cidades e capitais do país terrivelmente sujas. Recife, segundo Gardner, era “pouco recomendável para quem não tem negócios a tratar”.

Em abril de 1840, o Diário de Pernambuco publicou mais uma denúncia sobre o não-cumprimento da proibição do despejo de dejetos do alto dos sobrados. Rogava-se que as autoridades policiais lançassem suas vistas de “piedade e caridade para a infeliz e imunda Rua do Livramento, onde em pleno dia são lançadas da casa do Tesoureiro Geral uma fartura d’águas pútridas, por seus escravos, os quais, apesar de advertidos, continuam em tal procedimento, transformando a rua em lamoso charco, que causa miasmas fétidos e nocivos à salubridade pública”. O artigo relata que os vizinhos não podiam conter a náusea diante do mau cheiro.
À medida que o Recife crescia e a produção de dejetos aumentava, o trânsito de “tigres” ficava cada vez mais freqüente. A situação se agravava nas épocas de epidemia. Foram as constantes moléstias que serviram de base para a reformulação das noções de higiene. Entre as iniciativas para controlar as emanações maléficas, foram pavimentadas e drenadas algumas ruas. O espaço público também passou a ser lavado com a ajuda de moradores, e foram publicadas instruções favoráveis à circulação do ar e da água, como a construção de chafarizes com água potável e a proibição de sepultamentos dentro das igrejas. Incentivado pelos governantes e pelos médicos higienistas, o banho, que ainda não era um costume diário para boa parte da população, passou a ser visto como uma defesa suplementar contra as doenças. Já em alguns pontos das margens do Rio Capibaribe existiam pequenos cercados feitos de palha onde as famílias iam banhar-se, protegidas dos olhares alheios.
Os “tigres” também entraram na mira das autoridades. Um relatório sobre a saúde pública, apresentado à Presidência da Província em 1854, ressaltava a inconveniência de se transportarem dejetos em barricas, e propunha sua substituição por latrinas móveis e hermeticamente fechadas. Em 1858, houve a primeira tentativa de organização de uma empresa responsável por implantar um sistema moderno de esgotos na cidade. Acreditava-se que com tal empreendimento o Recife ganharia ares de civilidade, tendo como referência as idéias francesas. Sendo assim, não foi por acaso que um francês, o engenheiro Charles-Louis Cambronne, obteve o direito de explorar o serviço, cujo contrato previa o escoamento das “águas servidas” para o rio, por meio de canos de ferro ou grés (espécie de cerâmica vitrificada).
Já as matérias sólidas seriam depositadas em caixas de madeira revestidas de metal, que a empresa forneceria a cada domicílio. Após quinze dias, esses depósitos seriam transportados para locais distantes por carros da companhia, que também se ocuparia da coleta do lixo doméstico e das ruas. As obras levariam cinco anos e os contribuintes pagariam uma quantia anual pelo serviço.
A primeira tentativa não deu certo. Os custos para a concretização do projeto eram elevados e a população não via com bons olhos tantas mudanças, mas, mesmo assim, em 1865 foi renovado o contrato com o engenheiro francês. Cláusulas adicionais previam que Cambronne deveria assegurar à população um sistema completo de limpeza e escoamento de dejetos das casas existentes e das que viessem a ser construídas. Prédios e sobrados tinham que ter ao menos uma latrina (vaso sanitário) por andar. Seriam construídos vasos e mictórios públicos, e a cidade ficaria divida em três distritos: Recife, Santo Antônio (que englobava a freguesia de São José) e Boa Vista. No intuito de regularizar a coleta, a empresa teria preferência na remoção do lixo dos domicílios, regularizando assim o trabalho que antes estava a cargo de escravos e negros de ganho. O sistema proposto era o mais eficiente da época, exigindo dupla canalização, emprego de máquinas a vapor e adoção de aparelhos a sifão, semelhantes aos de Londres, com abundante suprimento de água.
O fato é que, por volta de 1867, os jornais da cidade reclamavam que o projeto dos esgotos ainda não havia saído completamente do papel, pois o número de latrinas era insuficiente e a canalização dos esgotos não chegara a boa parte das casas. Descontente, a população apelidou de “cambrone” os aparelhos de latrina. A companhia, por sua vez, argumentava que os moradores não utilizavam os vasos corretamente, lançando panos, ossos, espinhas de peixe e outros resíduos de cozinha, o que obstruía o sistema e causava prejuízos.
O sistema de esgotos funcionou precariamente durante a segunda metade do século XIX, contribuindo para a proliferação de epidemias, principalmente as de tifo e disenteria. Sem manutenção e higienização adequadas, as latrinas se transformaram em focos de ratos e baratas dentro das casas. O mau estado de conservação dos canos provocava a contaminação do solo, e as descargas eram insuficientes. Assim, os “tigres” continuariam a passear com seus repugnantes conteúdos pelas ruas do Recife, e durante muitos anos ainda se ouviria falar das feras terríveis que ali vagavam durante a noite.



MANUELA ARRUDA DOS SANTOS é mestranda em História Social da Cultura Regional na Universidade Federal Rural de Pernambuco, onde desenvolve a pesquisa "Higienizar para civilizar: a mudança de percepção em relação ao lixo no Recife (1830-1845)".



Saiba Mais - Livros:
ALENCASTRO, Luiz Felipe de. “Vida privada e ordem privada no Império” In: História da vida privada no Brasil II: Império: a corte e a modernidade nacional. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
ARRAIS, Raimundo. O pântano e o riacho: a formação do espaço público no Recife do século XIX. São Paulo: Humanistas/ FFLCH/USP, 2004.
AZEVEDO, Aloisio. O cortiço. São Paulo: Ática, 2005.
BUENO, Eduardo. Passado a limpo: história da higiene pessoal no Brasil. Gabarito, 2007.

domingo, 4 de julho de 2010

José Martí
Nossa América

MARTÍ, José. Nossa América. Tradução de Maria Angélica de Almeida Triber. São Paulo:
HUCITEC, 1983.254p. p:194-201. (Texto original de 1891)
Comentário: Liliam Ramos (UFRGS)

NOSSA AMÉRICA

O aldeão vaidoso acha que o mundo inteiro é sua aldeia e desde que seja ele o prefeito, ou podendo se vingar do rival que lhe tirou a noiva, ou desde que mantenha os cofres cheios, acredita que é certa a ordem universal, ignorando os gigantes que possuem botas de sete léguas e que podem lhe pôr a bota em cima, bem como a luta dos cometas lá no Céu, que voam pelo ar, adormecidos, engolindo mundos. O que restar de aldeia na América deverá acordar. Estes nãosão tempos para deitar de touca na cabeça, e sim com armas como travesseiro, como os varões de Juan de Castellanos: as armas do discernimento, que vencem as outras. Trincheiras de idéias valem mais do que trincheiras de pedra.
Não há proa que possa cortar uma nuvem de idéias. Uma idéia enérgica, acesa na hora certa neste mundo, detém, como a bandeira mística do juízo final, um esquadrão de couraçados.Os povos que não se conhecem devem ter pressa em se conhecer, como aqueles que vão lutar juntos. Os que se enfrentam como irmãos ciumentos, que querem os dois a mesma terra, ou o da
casa menor que tem inveja do da casa melhor, devem se dar as mãos para que sejam um só. Os que, ao amparo de uma tradição criminosa, cercearam, com o sabre banhado no sangue de suas próprias veias, a terra do irmão vencido, do irmão castigado além de suas culpas, se não querem ser chamados de ladrões pelo povo, que devolvam suas terras ao irmão. As dívidas de honra o honrado não cobra em dinheiro, mas pela bofetada. Já não podemos ser o povo de folhas, que vive no ar, carregado de flores, estalando ou zumbindo, conforme a acaricia o capricho da luz, ou
seja, açoitado ou podado pelas tempestades; as árvores devem formar fileiras, para que não passe o gigante das sete léguas! É a hora da avaliação e da marcha unida, e deveremos marchar
bem unidos, como a prata nas raízes dos Andes.
Só aos deficientes faltará a coragem. Os que não acreditam em sua terra são homens deficientes. Por lhes faltar a coragem, negam-na aos outros. Seu braço fraco, braço de unhas pintadas e pulseira, o braço de Madri ou de Paris, não atinge a árvore difícil; e dizem que não é passível atingir a árvore. É preciso acabar com esses insetos daninhos, que roem o osso da pátria que os nutre. Se são parisienses ou madrilenhos, que vão para o Prado, com seus lampiões, ou a Tortoni, com seus sorvetes. Estes filhos de marceneiro, que se envergonham de levar indumentária indígena, da mãe que os criou, e que renegam - velhacos! - a mãe doente e a deixam sozinha no leito da doença! Pois, quem é o homem? o que fica com a mãe, para curar-lhe a doença, ou aquele que a faz trabalhar onde não a vejam, e vive de seu sustento nas terras apodrecidas, rodeado pelos vermes, maldizendo o seio que o embalou e levando a pecha de traidor nas costas da casaca improvisada? Estes filhos de nossa América, que deve se salvar com seus índios e que vai de menos para mais; estes desertores que pedem fuzil aos exércitos da América do Norte, que afoga em sangue seus índios e que vai de mal a pior! Estes delicados homens que não querem fazer o trabalho de homens! Por acaso o Washington que lhes deu esta terra foi viver com os ingleses, viver com os ingleses nos anos em que os via marchar contra sua própria terra? Estes "incríveis" da honra, que a arrastam pelo chão estrangeiro, como os incríveis da Revolução Francesa, dançando e regozijando-se, arrastando os erres!
E em que pátria pode o homem ter mais orgulho do que em nossas repúblicas dolorosas da América, levantadas entre as massas mudas de índios, ao rumor da luta do livro contra o círio,sobre os braços ensangüentados de uma centena de apóstolos? De fatores tão desordenados,
jamais, em menos tempo histórico, criaram-se nações tão adiantadas e compactas. Os orgulhosos
pensam que a terra foi feita para servir-lhes de pedestal, por terem a pena fácil e a palavra colorida, e acusam de incapaz e irremediável sua república nativa, pois não lhes dá suas selvas novas, uma maneira contínua de marchar pelo mundo como cacique famoso, guiando cavalos persas e derramando champanhe. A incapacidade não está no país nascente, que pede formas adequadas e grandeza útil, e sim naqueles que querem reger povos originais, de composição singular e violenta, com leis herdadas de quatro séculos de prática livre nos Estados Unidos e de
dezenove séculos de monarquia na França. Com um decreta de Hamilton não se detém a marcha
do potro do boiadeiro. Com uma frase de Sieyès não se faz novamente fluir o sangue estancado da raça indígena. Para tudo isso, onde quer que se governe, é preciso prestar atenção para governar bem; e o bom governante na América não é o que sabe como se governam o alemão e o
francês, mas sim aquele que sabe de quais elementos está constituído seu país, e como pode guiá-los conjuntamente para chegar, por métodos e instituições nascidas do próprio país, àquele
estado desejado, onde cada homem se conhece e acumpre sua função, e todos desfrutam da abundância que a Natureza colocou para todos no povo que fecundam com seu trabalho e defendem com suas vidas. O governo deve nascer do país. O espírito do governo deve ser o do país. A forma de governo deverá concordar com a constituição própria do país. O governo não é
mais que o equilíbrio dos elementos naturais do país.
É por isso que o livro importado foi vencido, na América, pelo homem natural. Os homens naturais venceram os letrados artificiais. O mestiço autóctone venceu o crioulo exótico. Não há batalha entre a civilização e a barbárie, mas sim entre a falsa erudição e a natureza. O homem natural é bom, e acata, e premia a inteligência superior, enquanto esta não se vale de sua submissão para prejudicá-lo, ou não o ofende prescindindo dele, coisa que o homem natural não perdoa, disposto a recuperar pela força o respeito do que lhe fere a suscetibilidade ou lhe prejudica os interesses. Por esta concordância com os elementos naturais desdenhados, subiram
ao poder os tiranos da América; e caíram logo após tê-los traído. As repúblicas purgaram, nas tiranias, sua incapacidade de conhecer os elementos verdadeiros do país, de derivar deles a forma de governo, e de governar com eles. Governante, num povo novo, quer dizer criador.
Em povos instituídos por elementos cultos e incultos, os incultos governarão, graças a seu hábito de agredir e de resolver dúvidas com a própria mão, enquanto os cultos não aprenderem a arte de governar. A massa inculta é preguiçosa e tímida nas coisas da inteligência, e quer ser bem governada; mas se o governo a fere, sacode-o e então governa. Como poderão sair das universidades os governantes, se não há universidades na América onde se ensine o rudimentar
da arte de governo, que não é mais do que a análise dos elementos peculiares dos povos da América? Os jovens saem pelo mundo adivinhando as coisas com óculos ianques ou franceses, e
pretendem dirigir um povo que não conhecem. Na carreira política dever-se-ia negar entrada aos que desconhecem os rudimentos da política. O prêmio dos concursos não deverá ser para a
melhor ode, mas para o melhor estudo dos fatores do país em que se vive. No jornal, na cátedra,
na academia, deve-se levar adiante o estudo dos fatores reais do país. Basta conhecê-los, sem
vendas nem disfarces; pois aquele que, por vontade ou esquecimento, deixa de lado uma parte da verdade, tomba, afinal, vítima da verdade que lhe faltou. e cresce na negligência e cresce na negligência e derruba aquele que se levanta sem ela. Resolver o problema depois de conhecer seus elementos é mais fácil do que resolver o problema sem conhecê-los. Vem o homem natural,
indignado e forte e derruba a justiça acumulada nos livros, porque não é administrada de acordo
com as necessidades patentes do país. Conhecer é resolver. Conhecer o país, e governá-lo conforme o conhecimento, é o único modo de livrá-lo de tiranias. A universidade européia deve dar lugar à universidade americana. A história da América, dos incas para cá, deve ser ensinada
minuciosamente, mesmo que não se ensine a dos arcontes da Grécia. A nossa Grécia é preferível
à Grécia que não é nossa. Nos é mais necessária. Os políticos nacionais substituirão os políticos exóticos. Enxerte-se em nossas repúblicas o mundo; mas o tronco terá que ser o de nossas repúblicas. E cale-se o pedante vencido; pois não há pátria na qual o homem possa ter mais orgulho do que em nossas doloridas repúblicas americanas.
Apoiados no rosário, a cabeça branca, corpo mestiço de índio e de crioulo, chegamos, denodados, ao mundo das nações. Com o estandarte da Virgem saímos à conquista da liberdade. Um padre, alguns tenentes e uma mulher levantam no México a república sobre os ombros dos índios. Um cônego espanhol, à sombra de sua capa, ensina a liberdade francesa a alguns bacharéis magníficos, que colocam como chefe da América Central, contra a Espanha, o general da Espanha. Com roupagens monárquicas, e o Sol no peito, a levantar povos se lançaram os venezuelanos pelo Norte e os argentinos pelo Sul. Quando os dois heróis se chocaram, e o continente ia tremer, um deles, que não foi o menor, desviou as rédeas. E como o heroísmo é mais raro na paz, por ser menos glorioso que o da guerra; por ser para o homem é mais fácil morrer com honra que pensar com ordem; bem como governar com os sentimentos exaltados e
unânimes ê mais fácil que controlar, depois da batalha, os pensamentos de todo tipo. arrogantes,
exóticos ou ambiciosos; dado que os poderes conquistados na arremetida épica solapavam, com
a cautela felina da espécie e com o peso do real, o edifício que levantara nas regiões rudes e singulares de nossa América mestiça, nos povoados de calças curtas e casaco de Paris, a bandeira dos povos nutridos pela seiva governante na prática contínua da razão e da liberdade, dado que a constituição hierárquica das colônias resistia à organização democrática da República, ou as capitais engravatadas deixavam na soleira da porta o campo de botas de montaria, ou os redentores bíblicos não entenderam que a revolução triunfante com a alma da terra, desatada da
voz do salvador, com a alma da terra tinha que governar, e não contra ela nem sem ela, a América começou a padecer, e padece, pelo cansaço da acomodação entre os elementos discordantes e hostis, herdados de um colonizador despótico e avesso, e as idéias e formas importadas que vieram retardando, por sua falta de realismo local, o governo lógico. O continente, desarticulado durante três séculos por uma ordem que negava o direito do homem ao exercício de sua razão, entrou, não atendendo ou não escutando os ignorantes que o tinham ajudado a se redimir, num governo que tinha por base a razão; a razão de todos nas coisas de todos, e não a razão universitária de alguns sobre a razão camponesa de outros. O problema da independência não era uma mudança de forma, mas uma mudança de espírito.
Com os oprimidos era preciso fazer causa comum, para afiançar o sistema oposto aos interesses e hábitos de mando dos opressores. O tigre, espantado pelo clarão do disparo, volta de noite ao lugar da presa. Morre soltando fogo pelos olhos e com as garras ao ar. Não se escuta quando se aproxima, pois vem com garras de veludo. Quando a presa acorda o tigre já está atacando. A colônia continuou vivendo na república; e nossa América está se salvando de seus grandes erros - da soberba das cidades capitais, do triunfo cego dos camponeses desdenhados, da importação excessiva das idéias e fórmulas alheias, do desprezo injusto e grosseiro pela raça aborígine, - pela virtude superior, adubada com o sangue necessário, da república que luta contra a colônia. O tigre espera, atrás de cada árvore, agachado na esquina. Morrerá, garras ao ar, soltando fogo pelos olhos.
Mas, "estes países têm salvação", como anunciou Rivadavia, o argentino, que foi delicado demais em tempos duros: ao facão não cabe bainha de seda, nem no país que se ganhou com a lança se pode jogar fora a lança, pois se enfurece e vai para a porta do Congresso de Itúrbide, pedindo "para que nomeiem imperador ao loiro". Estes países têm salvação porque, com o gênio de moderação que parece imperar, pela harmonia serena da Natureza, no continente da luz, e pela influência da leitura critica que sucedeu na Europa à leitura de procura e falanstério em que se embebeu a geração anterior, está nascendo na América, nesses tempos reais, o homem real.
Éramos uma visão, com peito de atleta, mãos de janota e cara de criança. Éramos uma máscara, com as calças de Inglaterra, o colete parisiense, o jaquetão da América do Norte e o chapéu da Espanha. O índio, mudo, andava ao nosso redor e ia para a montanha, para o cume da montanha, para batizar seus filhos. O negro, policiado, cantava na noite a música de seu coração, só e desconhecido, entre as ondas e as feras. O camponês, o criador, revoltava, cego de indignação, contra a cidade desdenhosa, contra as suas criaturas. Éramos dragonas e togas, em países que vinham ao mundo com alpargatas nos pés e fitas na cabeça. Teria sido genial irmanar a caridade do coração e a ousadia dos fundadores, a fita e a toga; desestagnar o índio; ir dando espaço ao negro suficiente; adaptar a liberdade ao corpo dos que se levantaram e venceram por ela. Ficou-nos o ouvidor, e o general, e o letrado, e o prebendado. A juventude angelical, como dos braços de um polvo, lançava ao Céu, para cair com glória estéril, a cabeça coroada de nuvens. O povo nativo, com o impulso do instinto, carregava, cegado pelo triunfo, os bastões de ouro. Nem o livro europeu, nem o livro ianque davam a chave do enigma hispano-americano.
Apareceu o ódio e os países pioraram a cada ano. Cansados do ódio inútil, da resistência do livro contra a lança, da razão contra os círios, da cidade contra o campo; do império impossível das castas urbanas divididas sobre a nação natural, tempestuosa ou inerte, começa-se, inconscientemente, a experimentar o amor. Os povos se levantam e se cumprimentam. "Como somos?" se perguntam; e uns a outros vão dizendo como são. Quando aparece um problema em
Cojimar, não vão buscar a solução em Dantzig. As levitas ainda são da França, mas o pensamento começa a ser da América. Os jovens da América arregaçam as mangas, põem as mãos na massa e a fazem crescer com a levedura de seu suor. Entendem que se imita demais e que a salvação é criar. Criar é a palavra-chave desta geração. O vinho é de banana; e se sair ácido, é o nosso vinho! Entende-se que as formas de governo de um país deverão se acomodar a seus elementos naturais; que as idéias absolutas, para não pecar por erros de forma, devem ser postas em formas relativas; que a liberdade, para ser viável, tem que ser sincera e plena; que, se a república não abre os braços a todos, morre a república. O tigre de dentro e o tigre de fora entram pelas frestas. O general faz parar a cavalaria à passagem dos infantes. Ou, se deixa para
trás os infantes, o inimigo lhe envolve a cavalaria. Estratégia é política. Os povos devem viver criticando-se, porque a crítica é a saúde; mas com um só peito e uma só mente. Descer até os infelizes e levantá-los nos braços! Com o fogo do coração, degelar a América coagulada! Verter, fervendo e latejando nas veias, o sangue nativo do país! De pé, com o olhar alegre dos trabalhadores, saúdam-se, de um povo a outro, os novos homens americanos. Surgem os estadistas naturais do estudo direto da Natureza. Lêem para aplicar, não para copiar. Os economistas estudam os problemas nas suas origens. Os oradores começam a ser sóbrios. Os dramaturgos levam à cena os personagens nativos. As academias discutem temas nossos. A poesia corta a cabeleira zorrillesca e pendura na árvore gloriosa o colete vermelho. A prosa, faiscante e depurada, está carregada de idéias. Os governadores, nas repúblicas de índios, aprendem a linguagem dos índios.
A América vai se salvando de todos os seus perigos. Sobre algumas repúblicas está dormindo o polvo. Outras, pela lei do equilíbrio, se lançam ao mar, para recuperar, com pressa louca e sublime, os séculos perdidos. Outras, esquecendo que Juárez passeava numa carruagem de mulas, fazem uma carruagem de vento e colocam como cocheiro uma bolha de sabão; o luxo venenoso, inimigo da liberdade, apodrece o homem leviano e abre a porta ao estrangeiro. Outras
apuram, com o espírito épico da independência ameaçada, o caráter viril. Outras, na guerra rapace contra o vizinho, criam a soldadesca que poderá devorá-las. Mas talvez corra outro perigo
a nossa América, que não lhe vem de si mesma, e sim da diferença de origens, métodos e interesses entre os dois fatores continentais e está chegando a hora em que dela se aproxima, demandando relações íntimas, um povo empreendedor e pujante que a desconhece e desdenha. E como os povos viris, que se formaram por si mesmos, com a escopeta e com a lei, amam, e só amam, aos povos viris, como a hora do desenfreio e da ambição, de que talvez se livre, pelo predomínio da pureza de seu sangue, a América do Norte, ou na qual poderia ser lançada por suas massas vingativas e sórdidas, pela tradição de conquista e pelos interesses de um caudilho hábil, não está ainda tão próxima aos olhos dos mais afoitos, de modo a não dar tempo para a prova de altivez, contínua e discreta com a qual seria possível encará-la e desviá-la; já que o seu
decoro de república impõe à América do Norte, perante os povos atentos do Universo, um freio que não pode tirar a provocação pueril ou a arrogância ostensiva, ou a discórdia parricida de nossa América, - o dever urgente de nossa América é mostrar-se como é, unida em alma e intenção, vencedora veloz de um passado sufocante, manchada apenas com o sangue do adubo, arrancado das mãos, na luta com as ruínas, e o das veias que nossos donos furaram. O desprezo
do formidável vizinho, que nos desconhece, é o maior perigo de nossa América; e é urgente, já que o dia da visita está próximo, que o vizinho a conheça, que a conheça logo, para que não a despreze. Talvez por ignorância chegasse a cobiçá-la. Por respeito, tão logo a conhecesse, tiraria
as mãos dela. É preciso ter fé no melhor do homem e desconfiar do pior dele. É preciso dar oportunidade ao melhor para que se revele e prevaleça sobre o pior. Senão, o pior prevalece. Os
povos devem ter um pelourinho para aqueles que o incitam a ódios inúteis; e outro para aqueles
que não lhes dizem a verdade a tempo.
Não existe ódio de raças, porque não existem raças. Os pensadores raquíticos, os pensadores de lampiões, tecem e requentam as raças de livraria, que o viajante justo e o abobservador cordial procuram em vão na justiça da Natureza, onde se destaca no amor vitorioso e no apetite turbulento, a identidade universal do homem. A alma emana, igual e eterna, de corpos diversos em forma e em cor. Peca contra a Humanidade quem fomenta e propaga a oposição e o ódio das raças. Mas ria mistura dos povos, na aproximação com outros povos diversos, se condensam características peculiares e ativas de idéias e de hábitos, de abertura e de aquisição, de vaidade e de avareza, que um estado latente de preocupações nacionais poderia, num período de desordem interna ou de precipitação do caráter acumulado do país, transformar-se numa grave ameaça para as terras vizinhas, isoladas e fracas, que o país forte declara destrutíveis e inferiores. Pensar é servir. Não devemos supor, por antipatia provinciana, uma maldade congênita e fatal no povo loiro do continente, só por não falar nosso idioma, nem ver as coisas como nós as vemos, nem se parecer a nós em seus defeitos políticos, que são diferentes dos nossos; nem porque despreze os homens biliosos e morenos, e olhe indulgentemente, de sua eminência ainda insegura, aqueles que, menos favorecidos pela História, sobem em lances heróicos pelos caminhos das repúblicas; - nem serão escondidos os dados patentes do problema que pode ser resolvido, para a paz dos séculos, com o estudo oportuno e a união tácita e urgente da alma continental. Porque já ressoa o hino unânime; a atual geração leva às costas, pelo caminho adubado por seus pais sublimes, a América trabalhadora; do rio Bravo ao estreito de Magalhães, sentado no dorso do condor, espalhou o Grande Semi, nas nações românticas do continente e nas ilhas doloridas do mar, a semente da América nova!

El Partido Liberal, 30 de janeiro de 1891.

Obras Completas, t. VI, pp. 15-23.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

GUERRA MESSIÂNICA E CONFLITOS SOCIAIS:
UMA ANALISE SOBRE O CONTESTADO (1912-1916)



Elane Carvalho
Milena Correia



RESUMO

Este artigo trata do conflito que ocorreu na fronteira entre Paraná e Santa Catarina, uma região contestada pelos dois estados. Ali vivia um grande número de sertanejos sem-terras, que estavam sob a dura exploração dos fazendeiros e de duas empresas norte americanas, a Brazil Railway Company, que por meio de um contrato firmado com o governo federal recebeu terras para a construção de uma ferrovia, e a Southern Brazil Lamber and Colonization, uma empresa de extração de madeira. Com o final da construção da estrada de ferro o desemprego aumentou e cresceram as desavenças. Os sertanejos eram muito religiosos, e ao longo dos anos eles encontraram apoio nos monges que durante anos viviam peregrinando pelo sertão pregando a palavra de Deus e ajudando os mais necessitados. Sob a liderança do monge José Maria os sertanejos revoltados organizaram comunidades com leis próprias ignorando assim a autoridade do governo. Toda essa mobilização não foi vista com bons olhos pelo governo federal, travando-se então uma longa batalha.



Palavras-chave: República Velha; Messianismo; Povo.



A Guerra do Contestado foi resultado de um período da história (1912-1916), em que, semelhante a outros graves momentos de crise, interesses políticos, econômicos e religiosos se entrelaçavam.

Paraná e Santa Catarina não tinham seus limites definidos, isso era motivo para desavenças entre as duas províncias. Com a proclamação da República as disputas se acirraram ainda mais. Em 1900, o governo catarinense insatisfeito com a decisão que o império havia tomado de conceder ao Paraná a administração das terras que ficavam a oeste do rio Peixe, decidiu por entrar com ação judicial no Supremo Tribunal Federal, reivindicando a posse da área. O tribunal, em 1904, decidiu a favor de Santa Catarina. No entanto, o governo paranaense inconformado, embargou a decisão, mas acabou não tendo êxito, aumentando assim o impasse. (THOMÉ, 2004).

Em meio às disputas territoriais, começava a ser construída a estrada de ferro São Paulo – Rio Grande do Sul. A responsável pela obra foi Brazil Railway Company, de propriedade do norte-americano Percival Farquhar. Como forma de pagamento, o governo Federal deu à empresa uma área de trinta quilômetros, rica em madeira. Isso acabou por trazer sérios problemas à população que ali vivia. Sendo terras devolutas e não tendo título de propriedade, os sertanejos não puderam continuar no solo. Desolados sem terem para onde ir, muitos insistiam em ficar, o que acabou por provocar a ira da Brazil Railway. Como afirma Nilson César Fraga:

Aos posseiros que ousavam se opor as medidas de despejo, a Brazil Railway enviava elementos de seu corpo de segurança, que contava com 200 homens armados .

Essa citação nos ajuda a pensar que a empresa não mediu esforços para expulsar os sertanejos das terras. Não lhes restaram outra opção senão ir à procura de um novo lugar em busca da sua sobrevivência.

Com tantas terras em mãos, e sendo estas ricas em araucárias, madeira de grande valor comercial, a companhia viu logo a possibilidade de lucrar. Assim criou a Southern Brazil Lumber and Colonization, uma madeireira responsável pela comercialização da madeira. A Lumber logo que foi fundada comprou uma enorme porção de terras como ressalta Nilson Thomé:

[...] De paranaenses, a empresa adquiriu milhares de hectares de terras, cobertas pela floresta de araucária, utilizando métodos fraudulentos, pois parte dos títulos expedidos pelo Paraná continha registros em duplicata em Santa Catarina: ambos transferiram imóveis como terrenos devolutos a fazendeiros e políticos de cada estado .

Toda essa situação acabava por acirrar ainda mais os ânimos. Não só do povo, mas também de pequenos grupos de fazendeiros que trabalhavam com a madeira e que passaram a ser prejudicados pela Lumber, isso só fez agravar o conflito entre os dois estados.

Vivendo em constantes dificuldades os sertanejos buscavam conforto espiritual nos monges que desde o século XIX andavam peregrinando pela região fazendo trabalhos sociais. Para aquele povo, os monges eram profetas, santos, messias enviados por Jesus Cristo para guiá-los em direção à salvação.

O primeiro monge a se destacar nas terras do Contestado foi João Maria de Agostini. Viveu ali por volta de 1850, era um homem simples que dava conselhos, rezava e curava doenças. Seus modos não agradavam o governo do Rio Grande do Sul que tinha medo que os caboclos, junto com o monge, formassem uma comunidade de fanáticos. Foi perseguido e preso e logo depois não foi mais visto. (FRAGA, 2006).

Passados anos de seu desaparecimento surgiu outro religioso que foi confundido com João Maria por ter o mesmo nome. É claro que não se tratava do mesmo, mas a crença daquele povo não deixava dúvidas, era o mesmo monge.

Mais moço, homem de ação, teve importante presença no final do século XIX, durante a Revolução Federalista. Da mesma forma que seu antecessor era visto como um homem santo. Desapareceu misteriosamente. Sem saber ao certo o que aconteceu, o povo acreditava que logo voltaria. (FRAGA, 2006).

José Maria, o mais famoso e conhecido monge aparece em 1911. Pouco se sabia sobre a sua vida e mesmo descobrindo que seu verdadeiro nome era Miguel Lucena Boaventura, os caboclos, continuaram seguindo-o, pois para eles, José Maria era o irmão de João Maria e viera para continuar a caminhada. Os sertanejos que até então viviam dispersos agora passam a viver juntos com ele.

Com fama de milagreiro recebe a proteção do coronel Francisco Almeida, como recompensa por ter curado sua esposa. Vivendo em terras do coronel e tido como homem santo, desperta desconfiança de lideres políticos. Além de profetizar ele era contra a República e sempre estava falando dos males que ela podia causar.

Por conta dos festejos do Bom Jesus, José Maria e seus seguidores foram para o arraial de Taquaruçu, onde fundaram a comunidade do Quadro Santo e proclamaram a monarquia celeste organizando um grupo de homens denominado de “Os pares de França”, que faziam a segurança da comunidade e do monge. Essa atitude incomodou ainda mais os políticos. Para eles os caboclos queriam restaurar a monarquia.

O então prefeito de Curitibanos, Francisco de Albuquerque, com medo de uma possível conspiração, enviou um telegrama para o governo do Estado, onde acusava José Maria de pregar contra o novo regime e de ser um líder messiânico.

A chegada da força policial dispersa o grupo. José Maria e alguns caboclos se refugiaram na Vila do Irani, o que provoca enorme confusão, pois aquela era uma área comandada pelos paranaenses. Essa atitude foi vista como uma invasão de catarinenses, que não poderia ficar impune, aumentando assim as disputas políticas na região.

No combate do Banhado Grande, apesar das tropas terem sido derrotadas pelos sertanejos, José Maria juntamente com alguns de seus seguidores foram mortos. Nessa batalha também faleceu o comandante Gualberto. A morte do religioso não foi motivo para tristeza, porque dias antes de “partir”, ele profetizou sua morte a seus seguidores, prometendo a eles sua volta. (THOMÉ, 2004).

Dispersos tomando rumos diferentes, o governo agora respirava aliviado, “não tem mais com o que se preocupar”. Mas na memória dos caboclos ainda estava presente a figura do monge e acreditavam no cumprimento da sua profecia.

A partir do segundo semestre de 1913, Teodora, neta do fazendeiro Euzébio Ferreira Santos, passa ter visões em que o monge lhe aparece. Isso foi o suficiente para atrair os devotos à região revigorando assim o messianismo com a esperança de ressurreição do monge.

A família do fazendeiro junto com os romeiros peregrinou em direção a Taquaruçu formando uma nova cidade santa, no qual organizaram o exercito encantado de São Sebastião.


Os caboclos sabiam bem o que queriam, organizados em comunidade, não aceitavam o novo regime, e estavam dispostos a lutar pela terra e contra o poderio dos coronéis e das multinacionais.

Os ânimos ferveram em Curitibanos. Toda essa movimentação deixou em pânico os políticos catarinenses, que pedem ajuda ao governo federal.

A partir daí o movimento se transformou numa cruel e sangrenta guerra civil. Para acabar com os fanáticos o Governo Federal não mediu esforços. Foram mobilizados cerca de 8 mil homens, com a missão de destruir a organização comunitária de 20 mil sertanejos expulsando-os das terras que ocupavam.

Em dezembro de 1913, Exército e polícia estadual marcharam em direção a Taquaruçu. Não tiveram êxito, os caboclos já estavam no mato a espera das tropas.

Para eles essa vitória significou a glória. Acreditando ter ajuda do Exército Encantado de São Sebastião, não temiam nada. A confiança era tanta que não se importavam com armas e munições que os inimigos deixavam para trás e acabaram queimando-as porque as consideravam “impuras”. (ANJELO, 2000).

No ano seguinte, na vila de Curitibanos, houve mais uma tentativa de acabar com os camponeses, sem bons resultados. Nesse período foi executado o líder comunitário Praxedes Gomes Damasceno. Para Thomé, o incidente ocorreu quando Damasceno tentava reaver uma tropa de mulas que fora confiscada pelos militares. Ainda para o autor, “Isso acirrou os ânimos na ‘cidade santa’, a ponto de expulsarem frei Rogério Neuhaus, que havia tentado dissuadir os ajuntamentos. ” (THOMÉ, 2004, p.80).

Isso nos faz refletir que, igualmente ao governo, a igreja católica além de sua ausência quase que total naquela área, se manifestava contra o messianismo que envolvia o movimento, defendendo a intervenção no território.

Por conta das agitações mais homens foram mobilizados para tentarem contê-los. Essa operação não foi bem sucedida, pois a maioria dos caboclos já haviam se retirado rumo a Caraguatá na noite de 8 de fevereiro de 1914, quando começou o bombardeio. Os que ficaram foram todos mortos.

Os combatentes organizaram-se novamente e passaram a ter uma atitude mais ofensiva. Elegeram a jovem Maria Rosa de 13 anos para ser a líder do Exército Encantado. Ela dizia receber ordens de José Maria, o que foi o suficiente para conquistar a confiança de todos.

Sabendo do novo reajuntamento os militares comandados pelo tenente coronel Capitulino Gomes Gameiro, atacaram Caraguatá no dia 9 de março de 1914. Mais uma vez os sertanejos não se deixaram abater. Além de serem conhecedores da região, o que fez com que tivessem uma boa vantagem sobre o inimigo, outro fator que contribuiu para essa e outras vitórias foram as táticas de guerra utilizadas para surpreenderem os inimigos. Eram usados homens chamados “bombeiros” que se disfarçavam de mendigos para entrarem no acampamento das tropas e poderem espioná-los, passando informações aos chefes dos redutos. Para amedrontar ainda mais os soldados eles costumavam pendurar a até esquartejar os cadáveres de soldados mortos. (THOMÉ, 2004). O impacto dessas práticas sobre as tropas foi de repulsa, e esses tinham os inimigos como “bárbaros”, principalmente pelo fato de que sendo cristãos acreditavam que através do enterro poderiam alcançar o descanso eterno. Diante dos corpos destroçados entravam em desespero, pois se viessem a falecer na batalha não poderiam ter um sepultamento digno. Um observador mais atento verá que não se tratava apenas em assombrar os soldados mas também o valor que a terra significava para os caboclos. Basta lembrar que eles chamavam os redutos de “cidade santa” e se a cidade é santa o território também é santo, assim os inimigos não poderiam repousar no território do “Exército Encantado” e ter o mesmo destino.

Diante de mais uma derrota, o governo Federal enviou mais homens, e nomeou o general Carlos Frederico de Mesquita como novo comandante.

A líder Maria Rosa ao perceber toda aquela movimentação, além de ser alertada por pessoas da própria comunidade, com receio de um novo ataque, não perdeu tempo e ordenou a retirada do povo para redutos menores nos quais se reorganizaram. Como enfatiza Nilson Thomé:

[...] Organizou-se o Exército Encantado, inicialmente com 3 mil homens e 2 mil mulheres, com o conselho de comandantes, formado pelos lideres dos piquetes – de – briga e chefes - de - redutos [...].

Nos dias 13 a 29 de maio de 1914 foram bombardeados Caraguatá e Santo Antônio. De nada adiantou, o que se encontrou foi uma área vazia, aumentando assim a frustração dos soldados.

Nos meses seguintes foram feitas patrulhas por toda área na tentativa de convencer os caboclos a se entregarem. Nesse mesmo período começaram a invadir fazendas, roubando-lhes gados e alimentos. A Lumber também foi alvo, sendo incendiado em 5 de setembro um de seus depósitos. (FRAGA, 2004). No dia seguinte atacaram o trem que havia chegado de São João trazendo militares e o capitão Matos Costa, que acabou sendo morto no confronto.

As populações das cidades circunvizinhas estavam apavoradas. Políticos dos dois Estados apelaram para o Ministério da Guerra que nomeou o general Setembrino de Carvalho para comandar a operação.

O general chegou a Curitiba no dia 12 de setembro e logo tratou de organizar o quartel-general. Como narra Nilson Thomé:

[...] Chamou seis regimentos de infantaria, dez batalhões de caçadores, três batalhões de infantaria, quatro regimentos de cavalaria, duas companhias de metralhadoras, um grupo de artilharia de montanha e um batalhão de engenharia, além de pelotões de trem, seções de ambulância e hospitais de sangue.

Pela quantidade de homens mobilizados, fica evidente que o Exército, ávido por acabar definitivamente com a guerra, não mediu esforços para usar todo seu poderio militar contra os resistentes, inclusive o uso da aviação que acabou não tendo sucesso porque o avião que ia ser usado na batalha caiu antes de chegar ao destino. Todo esse aparelhamento bélico foi utilizado contra os sertanejos que usavam apenas armas como: facão, revólveres, mosquetões e espingardas velhas.


A tática militar do general foi cercar os redutos de modo que os revoltosos não pudessem sair. Os combates passaram a ser diários e o cerco foi se apertando, resultando na falta de alimentos, munições e remédios. Para Thomé “A fome fez com que cavalos, cachorros, cintas, cangalhas, arreios e chapéus de couro cru servissem de alimento”. (THOMÉ, 2004, p.82).

Uma epidemia de tifo em dezembro de 1914, só fez agravar os problemas. Os últimos sobreviventes de Caraguatá desesperados começaram a desertar. Confiantes na promessa de anistia e poder adquirir titulo de propriedade, saíam dos redutos para juntar-se ao Exército. Preocupado com essa atitude, o líder Adeodato Manuel Ramos, passou a ameaçar de morte os companheiros. (ANGELO, 2000).

Mesmo com todo o seu arsenal as forças continuavam a sofrer numerosas baixas. Concentrados em Santa Maria e cada vez mais cercados, os sertanejos resistiram bravamente às investidas do capitão Tertuliano Potyguara no dia 3 de abril de 1915. Logo depois, o mesmo capitão, com ajuda de “vaqueanos”, conseguiu tomar o reduto do Timbó e do Caçador.

A expedição do general Setembrino, foi encerrada no dia 5 de abril, período em que morreram Maria Rosa, vários lideres e centenas de combatentes. Para mostrar todo seu poder as tropas não exitaram em queimar milhares de casebres. (FRAGA, 2006). Os que resistiram ao massacre se refugiaram em pequenos redutos.

Essa foi à fase mais cruel da guerra. Policiais juntamente com “vaqueanos”, para acabar de vez com os novos ajuntamentos, iniciaram a “operação varredura” no intuito de exterminar os sobreviventes. Fragilizados e com cada vez mais baixas, eram capturados e mortos. Muitas dessas execuções aconteciam de forma coletiva, e em seguida os cadáveres eram queimados.

No inicio de 1916 foi preso Deodato Manuel Ramos, último líder do Contestado. Vencidos pela fome e doenças e sem liderança os poucos que restaram renderam-se aos militares. Com o fim do conflito o que se viu foi um cenário desolador entre milhares de mortos, feridos e desertores.

Meses depois foi assinado no Rio de Janeiro o “Acordo limites”, pelos dois governadores, no qual foi dividido o território litigioso, pondo fim à disputa territorial.

A guerra do Contestado é um momento da História do Brasil, que como muitos outros, não foram descritos pela historiografia com clareza dos fatos, nem houve preocupação em privilegiar a fidelidade dos acontecimentos. Interesses individuais e especulações capitalistas direcionavam as ações do governo e do próprio Exército.

Com o desejo de colocar em prática o lema do novo regime “ordem e progresso”, o governo chegou ao extremo. Ao expulsar o povo de suas terras e entregá-las às empresas, o novo regime optou por ferrovias, madeireira, capital estrangeiro, estradas, portos e outros símbolos que representavam um modelo que ostentasse modernidade, como europeu.

A política pública capitalista implantada naquela região não incluía os camponeses. Ao retirar a terra dessa gente, negou-lhes direitos básicos, pois era dali que provinha a moradia, o trabalho o alimento, subsídios necessários para a sobrevivência humana.

A terra ainda é motivo de ocupações segundo o MST. Movimentos sem-terra estão por toda parte organizando invasões. A natureza política dos movimentos não pode ser homogeneizada. Cada qual possui uma ideologia individual, mas, em comum, buscam a terra.

Quanto ao Governo Federal por sua vez, ainda não conseguiu elaborar uma política pública ampla capaz de devolver a terra aos camponeses e a oferecer os meios para que os mesmos criem raízes e consigam se estruturar socialmente e economicamente.

O retorno à terra deve ser planejado, alvo de um estudo sistematizado e requere a intervenção direta do Estado oferecendo instrução, educação, saúde, lazer, recursos financeiros e inserção dos assentamentos no mercado global.















Referências

ANGELO, Cláudio. A guerra que o Brasil esqueceu. In: Super Interessante, São Paulo, ed. 152, maio 2000, p.44 - 50. Disponível em . Acesso em: 12 de jun. 2009 ás 14h

FRAGA, Nilson César. Mudanças e Permanências na rede ferroviária do contestado: uma abordagem acerca da Formação Territorial do Sul do Brasil. 2006. Tese (Doutorado em meio ambiente e Desenvolvimento), UFPR, Paraná. . Acesso em: 17 de Jun. 2009 ás 13h 45 min. p.64 - 91

THOMÉ, Nilson. Contestado, Guerra cabocla. In: História Viva. São Paulo, ano I, nº.12, p. 76 - 82, out. 2004.